
O grande "divórcio" que tem caracterizado o interrelacionamento entre ensino superior e a realidade do jogo económico tem - salvo honrosas e escassíssimas excepções - resistido tenazmente quer a críticas quer às variadas tentativas dos "conselheiros matrimoniais" mais empenhados. Se, por um lado, a realidade empresarial se queixa do grande desajuste entre a formação com que os alunos saem das nossas escolas de ensino superior e as reais necessidades das empresas e demais organizações, por outro assiste-se à lamentação das escolas em relação à falta de interesse com que empresários e outros responsáveis encaram a sua participação - supostamente activa - nos conselhos consultivos e, de um modo geral, sempre que são chamados a sugerir, colaborar, ou seja, a contribuir para o almejado ajustamento de posicionamentos.
As razões apontadas para o "fenómeno", por uma e outra parte, são já clássicos do mundo das ideias e opiniões dos que povoam os diversos locais em que a questão é debatida. Uma, porém, não fazendo as delícias de ninguém e, naturalmente, por isso mesmo, não colhendo grandemente em nenhuma das hostes, nunca a vimos constar de nenhum dos "arsenais". Referimo-me, muito simplesmente, ao comodismo. Não é novidade para ninguém que a mudança assusta a todos em todo o lado, principalmente quando se não conhece com rigor a direcção, sentido e intensidade da resultante final de todo o processo. A única diferença é que, nesta questão concreta, esses receios assumem contornos de doença crónica e, até ver, incurável.Mas, o que nos impedirá de procurar entender melhor a globalidade dos argumentos invocados, que é como quem diz, de ver o óbvio, de detectar o evidente, no fundo, de resolver aquilo de que toda a gente parece conhecer a solução ?
A resposta a esta questão parece residir em duas categorias de causas principais, naturalmente, interligadas: por um lado, os erros de definição política ao longo dos tempos; por outro, aspectos mais tipicamente culturais - que alegadamente nos caracterizam enquanto povo - como, por exemplo, o individualismo, a falta de iniciativa e de espírito de cooperação, as perspectivas de curto prazo sempre prevalecentes, etc. Se aos primeiros, pelo menos em teoria, poderemos mais praticamente "acudir" (parecendo mesmo ter chegado o momento de estarmos "condenados" a encará-los), quanto aos segundos só a consciencialização generalizada em torno da sua existência poderá começar a dar frutos, o que, por ora, não parece estar a acontecer.
É este o momento propício à reflexão. Estamos em plena fase de candidatura para o Ensino Superior, e muitos dos que pretendem ingressar neste não possuem, infelizmente, grandes perspectivas quanto ao início da sua vida profissional. Importa agir. Importa mudar.