VJ-23X respondeu:
- Conjuntamente há um problema de transporte. Gostaria de saber quantas unidades de energia solar seriam necessárias para transportar galáxias de indivíduos de uma galáxia para a seguinte.
- Muito bem visto. A Humanidade já consome duas unidades de energia solar por ano.
- A maior parte é desperdiçada. No fim do ano a nossa galáxia produz mil unidades de energia solar por ano e só aproveitamos duas.
- Certo, mas mesmo com um rendimento de cem por cento apenas demoraríamos o fim. As nossas exigências de energia estão a aumentar em progressão geométrica, ainda mais depressa que a nossa população. Esgotaremos a energia ainda mais depressa do que esgotamos as galáxias. Um bom ponto. Um ponto muito bom.
- Teremos de produzir novas estrelas a partir dos gases interestelares.
- Ou do calor dissipado? – perguntou MQ-17J, sarcasticamente.
- Pode ser que haja alguma maneira de inverter a entropia. Temos de perguntar ao AC Galáctico.
VJ-23X não estava verdadeiramente a falar a sério, mas MQ-17J tirou do bolso o seu AC-Contacto e colocou-o na mesa, na sua frente.
- Estou meio disposto a isso – disse ele. – É algo que a espécie humana terá de enfrentar um dia.
Ficou a olhar sombriamente para o seu pequeno Contacto-AC. Era um cubo com somente cinco centímetros de lado e não representava nada em si, mas estava ligado através do hiperespaço a um grande AC Galáctico que servia toda a Humanidade. Considerando o hiperespaço, fazia parte do AC Galáctico.
MQ-17J fez uma pausa para perguntar a si próprio se alguma vez na sua vida imortal poderia ver o AC Galáctico. Estava num pequeno mundo que era todo seu, uma rede de feixes de força que continham a matéria em que fluxos de submesões tinham ocupado o lugar das velhas e desajeitadas valvular moleculares. No entanto, apesar do seu funcionamento subetéreo, sabia-se que o AC Galáctico tinha trezentos metros de comprimento.
MQ-17J perguntou subitamente ao seu contacto-AC:
- A entropia pode ser invertida?
VJ-23X pareceu estupefacto e explicou imediatamente isso.
- Porque não?
- Sabemos amos que a entropia não pode ser invertida. Não podemos tornar o fumo e as cinzas de novo numa árvore.
- Tens árvores no teu mundo? – perguntou MQ-17J.
O som do AC Galáctico sobressaltou-os. A sua voz saiu fina e bela do pequeno Contacto-AC sobre a secretária. Disse: “OS DADOS SÃO INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”
VJ-23X exclamou:
- Vês?
Os dois homens voltaram à questão do relatório que tinham de apresentar ao Conselho Galáctico.
continua brevemente
domingo, 19 de Fevereiro de 2006
sábado, 18 de Fevereiro de 2006
A Pergunta Final (Parte V)
VJ-23X de Mameth olhou para as profundezas negras do mapa tridimensional, em pequena escala, da Galáxia, e disse:
- Não estaremos a ser ridículos ao preocuparmo-nos tanto com isto?
MQ-17J de Nicron abanou a cabeça.
- Creio que não. Sabes que a Galáxia, se a expansão continuar a fazer-se com a mesma rapidez, ficará cheia dentro de cinco anos.
Ambos pareciam ter vinte e poucos anos, eram altos e bem formados.
VJ-23X insistiu:
- Mesmo assim hesito em submeter um relatório pessimista ao Conselho Galáctico.
- Não consideraria outra espécie de relatório. Agitá-los-á um bocado. Temos de os agitar.
VJ-23X suspirou:
- O espaço é infinito. Cem mil milhões de galáxias estão ao nosso dispor. Mais…
- Cem mil milhões não é o infinito e cada vez é menos infinito. Pensa bem! Há vinte mil anos a Humanidade resolveu primeiro o problema da utilização da energia solar e séculos depois as viagens interplanetárias tornaram-se possíveis. A Humanidade demorou um milhão de anos a encher um pequeno mundo e depois só quinze mil anos para encher o resto da Galáxia. A população dobra agora em cada dez anos…
VJ-23X interpôs:
- Podemos agradecer isso á imortalidade.
- Muito bem. A imortalidade existe e temos de tomar isso em conta. Confesso que isso tem o seu lado aborrecido, essa imortalidade. O AC Galáctico tem-nos resolvido muitos problemas, mas ao resolver o problema de evitar a velhice e a morte, estragou todas as outras soluções.
- No entanto creio que não quererias abandonar a vida.
- De maneira nenhuma – retorquiu MQ-17J, suavizando imediatamente a resposta: - Ainda não. Não me sinto suficientemente velho. Que idade tens?
- Duzentos e vinte e três. E tu?
- Ainda não fiz duzentos…Mas voltemos ao meu ponto de vista. A população duplica em cada dez anos. Quando esta galáxia estiver cheia, encheremos outra em dez anos. Outros dez anos e encheremos duas. Outra década e mais quatro. Daqui a cem anos, um milhão de galáxias. Dentro de dez mil anos, todo o Universo conhecido. E depois?
continua brevemente...
- Não estaremos a ser ridículos ao preocuparmo-nos tanto com isto?
MQ-17J de Nicron abanou a cabeça.
- Creio que não. Sabes que a Galáxia, se a expansão continuar a fazer-se com a mesma rapidez, ficará cheia dentro de cinco anos.
Ambos pareciam ter vinte e poucos anos, eram altos e bem formados.
VJ-23X insistiu:
- Mesmo assim hesito em submeter um relatório pessimista ao Conselho Galáctico.
- Não consideraria outra espécie de relatório. Agitá-los-á um bocado. Temos de os agitar.
VJ-23X suspirou:
- O espaço é infinito. Cem mil milhões de galáxias estão ao nosso dispor. Mais…
- Cem mil milhões não é o infinito e cada vez é menos infinito. Pensa bem! Há vinte mil anos a Humanidade resolveu primeiro o problema da utilização da energia solar e séculos depois as viagens interplanetárias tornaram-se possíveis. A Humanidade demorou um milhão de anos a encher um pequeno mundo e depois só quinze mil anos para encher o resto da Galáxia. A população dobra agora em cada dez anos…
VJ-23X interpôs:
- Podemos agradecer isso á imortalidade.
- Muito bem. A imortalidade existe e temos de tomar isso em conta. Confesso que isso tem o seu lado aborrecido, essa imortalidade. O AC Galáctico tem-nos resolvido muitos problemas, mas ao resolver o problema de evitar a velhice e a morte, estragou todas as outras soluções.
- No entanto creio que não quererias abandonar a vida.
- De maneira nenhuma – retorquiu MQ-17J, suavizando imediatamente a resposta: - Ainda não. Não me sinto suficientemente velho. Que idade tens?
- Duzentos e vinte e três. E tu?
- Ainda não fiz duzentos…Mas voltemos ao meu ponto de vista. A população duplica em cada dez anos. Quando esta galáxia estiver cheia, encheremos outra em dez anos. Outros dez anos e encheremos duas. Outra década e mais quatro. Daqui a cem anos, um milhão de galáxias. Dentro de dez mil anos, todo o Universo conhecido. E depois?
continua brevemente...
quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2006
A Pergunta Final (Parte IV)
Era uma bela sensação ter um Microvac seu, e Jerrodd estava muito contente por fazer parte daquela geração e não doutra. Na mocidade de seu pai, os únicos computadores tinham sido máquinas tremendas ocupando centenas de quilómetros quadrados. Havia somente um em cada planeta. Chamavam-lhes “ACs planetários”. Tinham aumentado constantemente de tamanho durante mil anos e então, subitamente, surgiram as válvulas moleculares, de modo que ate os maiores AC planetários podiam ser metidos num espaço correspondente a metade do volume de uma nave espacial.
Jerrodd sente-se elevado, como sempre lhe acontece quando pensa que o seu Microvac pessoal é muitas vezes mais complicado que os antigos e primitivos Multivac que dominaram primeiro o Sol e é quase tão complicado como o AC planetário da Terra, o maior de todos, que resolveu em primeiro lugar o problema das viagens hiperespaciais e tornou possível as viagens às estrelas.
- Tantas estrelas, tantos planetas – suspirou Jerrodine, ocupada com os seus próprios pensamentos. – Suponho que as famílias irão eternamente em busca de novos planetas, tal como nos vamos agora.
- Não eternamente – notou Jerrodd com um sorriso. – Um dia isto parará, mas durará milhares de milhões de anos. Muitos milhares de milhões. Até que as estrelas se extingam, como sabes. A entropia tem de aumentar.
- O que é a entropia, papá? – guinchou Jerrodette II.
- Entropia, queridinha, é somente uma palavra que significa o que no Universo se vai esgotando. Tudo se esgota, como sabes, como o teu pequeno robot que anda e fala, lembras-te?
- Não lhe podem por uma nova célula de energia, como aconteceu com o meu robot?
- As estrelas são as nossas células de energia, querida. Uma vez que se acabem não haverá mais células de energia.
Jerrodette II começou imediatamente a gritar:
- Não as deixe, papá. Não deixe que as estrelas se esgotem.
- Olha para o que fizeste – murmurou Jerrodine, exasperada.
- Como é que eu podia saber que as ia assustar? – murmurou Jerrodd, em resposta.
- Pergunta ao Microvac – uivou Jerrodette I. – Pergunta-lhe como se pode voltar a acender as estrelas.
- Anda, faz isso – propôs Jerrodine. – Acalmá-las-á. – Jerrodette estava também quase a chorar.
Jerrodd encolheu os ombros.
- Bem, bem, queridas. Vou perguntar ao Microvac. Não se preocupem. Ele dar-nos-á a resposta
Fez a pergunta a Microvac e acrescentou rapidamente:
- Imprime a resposta.
Jerrodd apanhou na cova da mão a fina fita de celufilme e disse, num tom de satisfação:
- Vejam: o Microvac diz que cuidara de tudo quando esse momento chegar pelo que não se devem preocupar.
Jerrodine acrescentou:
- E agora, pequeninas, são horas de irem para a cama. Não tardaremos a estar no nosso novo lar.
Jerrodd leu de novo as palavras impressas no celufilme antes de o destruir: “DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”
Encolheu os ombros e olhou para a visiplaca. O X-23 estava mesmo em frente.
continua brevemente...
Jerrodd sente-se elevado, como sempre lhe acontece quando pensa que o seu Microvac pessoal é muitas vezes mais complicado que os antigos e primitivos Multivac que dominaram primeiro o Sol e é quase tão complicado como o AC planetário da Terra, o maior de todos, que resolveu em primeiro lugar o problema das viagens hiperespaciais e tornou possível as viagens às estrelas.
- Tantas estrelas, tantos planetas – suspirou Jerrodine, ocupada com os seus próprios pensamentos. – Suponho que as famílias irão eternamente em busca de novos planetas, tal como nos vamos agora.
- Não eternamente – notou Jerrodd com um sorriso. – Um dia isto parará, mas durará milhares de milhões de anos. Muitos milhares de milhões. Até que as estrelas se extingam, como sabes. A entropia tem de aumentar.
- O que é a entropia, papá? – guinchou Jerrodette II.
- Entropia, queridinha, é somente uma palavra que significa o que no Universo se vai esgotando. Tudo se esgota, como sabes, como o teu pequeno robot que anda e fala, lembras-te?
- Não lhe podem por uma nova célula de energia, como aconteceu com o meu robot?
- As estrelas são as nossas células de energia, querida. Uma vez que se acabem não haverá mais células de energia.
Jerrodette II começou imediatamente a gritar:
- Não as deixe, papá. Não deixe que as estrelas se esgotem.
- Olha para o que fizeste – murmurou Jerrodine, exasperada.
- Como é que eu podia saber que as ia assustar? – murmurou Jerrodd, em resposta.
- Pergunta ao Microvac – uivou Jerrodette I. – Pergunta-lhe como se pode voltar a acender as estrelas.
- Anda, faz isso – propôs Jerrodine. – Acalmá-las-á. – Jerrodette estava também quase a chorar.
Jerrodd encolheu os ombros.
- Bem, bem, queridas. Vou perguntar ao Microvac. Não se preocupem. Ele dar-nos-á a resposta
Fez a pergunta a Microvac e acrescentou rapidamente:
- Imprime a resposta.
Jerrodd apanhou na cova da mão a fina fita de celufilme e disse, num tom de satisfação:
- Vejam: o Microvac diz que cuidara de tudo quando esse momento chegar pelo que não se devem preocupar.
Jerrodine acrescentou:
- E agora, pequeninas, são horas de irem para a cama. Não tardaremos a estar no nosso novo lar.
Jerrodd leu de novo as palavras impressas no celufilme antes de o destruir: “DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”
Encolheu os ombros e olhou para a visiplaca. O X-23 estava mesmo em frente.
continua brevemente...
quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2006
A Pergunta Final (Parte III)
Jerrodd, Jerrodine e Jerrodette I e II observeram a imagem estrelada na visiplaca mudar quando a passagem através do hiperespaço se completou nas suas voltas de não-tempo. O salpicado regular de estrelas cedeu o seu lugar a predominância de um único disco marmóreo, centrado.
- É o X-23 – anunciou Jerrodd, confidencialmente. As suas mãos magras apertaram-se com força atrás das duas costas e os nos dos dedos embranqueceram.
As pequenas Jerrodettes tinham passado pela primeira vez pelo hiperespaço e estavam muito conscientes da sensação momentânea de “virado do avesso”. Voltaram aos seus risos e correram atrás uma da outra como loucas, em direcção à mãe gritando:
- Alcançámos o X-23…chegamos ao X-23…chegámos…
- Silêncio, pequenas – ordenou Jerrodine, num tom severo. – Tens a certeza, Jerrodd?
- Quem pode ter a certeza? – perguntou Jerrodd, olhando para cima, para a bossa de metal que se situava debaixo do tecto. Corria a todo o comprimento da sala, desaparecendo através da parede no outro extremo. Era tão longa como a nave.
Jerrodd mal sabia algo sobre o espesso cilíndrico de metal, excepto que lhe chamavam um Microvac, que respondia às perguntas que se lhe fizessem e que alem disso tinha a tarefa de guiar a nave ate ao destino predeterminado, de proceder à alimentação com a energia das varias centrais subgalácticas e de computar as equações para os vários saltos hiperespaciais.
Jerrold e a sua família tinham somente de esperar e alguém dissera uma vez a Jerrold que o “ac” no fim de “Microvac” vem de analog computer – computador analógico – em Inglês antigo, mas ele estava prestes a esquecer até isso.
Os olhos de Jerrodine estavam húmidos quando ela olhou para a visiplaca.
- Não me posso conter. Senti-me esquisita ao abandonar a Terra.
- Porquê? – perguntou Jerrodd. – Não tínhamos nada lá. Em X-23 temos tudo. Não estarás sozinha. Não serás uma pioneira. Já há mais de um milhão de pessoas no planeta. Senhor! Os nossos bisnetos irão procurar novos mundos porque X-23 já estará excessivamente povoado. – Após uma pausa de reflexão acrescentou: - Digo-te que é uma felicidade que os computadores tenham permitido realizar as viagens interestelares, da maneira como estamos a aumentar.
- Bem sei, bem sei – confessou Jerrodine, muito triste.
Jerrodette I afirmou prontamente:
- O nosso Microvac é o melhor Microvac do mundo.
- Também creio – disse Jerrodd, acariciando-lhe ao cabelos.
continua brevemente
- É o X-23 – anunciou Jerrodd, confidencialmente. As suas mãos magras apertaram-se com força atrás das duas costas e os nos dos dedos embranqueceram.
As pequenas Jerrodettes tinham passado pela primeira vez pelo hiperespaço e estavam muito conscientes da sensação momentânea de “virado do avesso”. Voltaram aos seus risos e correram atrás uma da outra como loucas, em direcção à mãe gritando:
- Alcançámos o X-23…chegamos ao X-23…chegámos…
- Silêncio, pequenas – ordenou Jerrodine, num tom severo. – Tens a certeza, Jerrodd?
- Quem pode ter a certeza? – perguntou Jerrodd, olhando para cima, para a bossa de metal que se situava debaixo do tecto. Corria a todo o comprimento da sala, desaparecendo através da parede no outro extremo. Era tão longa como a nave.
Jerrodd mal sabia algo sobre o espesso cilíndrico de metal, excepto que lhe chamavam um Microvac, que respondia às perguntas que se lhe fizessem e que alem disso tinha a tarefa de guiar a nave ate ao destino predeterminado, de proceder à alimentação com a energia das varias centrais subgalácticas e de computar as equações para os vários saltos hiperespaciais.
Jerrold e a sua família tinham somente de esperar e alguém dissera uma vez a Jerrold que o “ac” no fim de “Microvac” vem de analog computer – computador analógico – em Inglês antigo, mas ele estava prestes a esquecer até isso.
Os olhos de Jerrodine estavam húmidos quando ela olhou para a visiplaca.
- Não me posso conter. Senti-me esquisita ao abandonar a Terra.
- Porquê? – perguntou Jerrodd. – Não tínhamos nada lá. Em X-23 temos tudo. Não estarás sozinha. Não serás uma pioneira. Já há mais de um milhão de pessoas no planeta. Senhor! Os nossos bisnetos irão procurar novos mundos porque X-23 já estará excessivamente povoado. – Após uma pausa de reflexão acrescentou: - Digo-te que é uma felicidade que os computadores tenham permitido realizar as viagens interestelares, da maneira como estamos a aumentar.
- Bem sei, bem sei – confessou Jerrodine, muito triste.
Jerrodette I afirmou prontamente:
- O nosso Microvac é o melhor Microvac do mundo.
- Também creio – disse Jerrodd, acariciando-lhe ao cabelos.
continua brevemente
terça-feira, 14 de Fevereiro de 2006
A Pergunta Final (Parte II)
- Oh, que diabo, é o mesmo. Até que o Sol de extinga, Bert.
- Isso não é a eternidade.
- Está bem. Milhares de milhões de anos. Vinte mil milhões, talvez. Estás satisfeito?
Lupov passou os dedos pelo cabelo que rareava como se quisesse assegurar-se que ainda lhe restavam alguns e sorveu um pouco da bebida.
- Vinte mil milhões não são a eternidade.
- Bem, deve durar mais do que nós, não é?
- Tal como o carvão e o urânio.
- Muito bem, mas agora podemos ligar cada uma das naves à Estação Solar e podemos ir a Plutão e voltar um milhão de vezes sem nos preocuparmos com o propulsante. Com o carvão e o urânio não podíamos fazer isso. Pergunta ao Multivac, se não acreditas em mim.
- Não tenho de perguntar ao Multivac. Sei que é assim.
- Então deixa de desacreditar o que o Multivac fez para nós – concluiu Abell, furioso. – Ele fez as coisas muito bem feitas.
Fez-se silêncio durante algum tempo. Abell levou o copo aos lábios, de vez em quando, e os olhos de Lupov fecharam-se lentamente. Repousaram.
Depois os olhos de Lupov abriram-se de súbito.
- Estás a pensar em passar para outro sol quando o nosso se esgotar, não é?
- Não estou a pensar.
- Certamente que estas. És fraco em lógica, esse é o teu problema. És como o rapaz daquela história que foi apanhado por uma súbita chuvada e se escondeu debaixo de uma árvore, num pequeno bosque. Não escava preocupado porque quando a arvore ficasse molhada iria colocar-se debaixo doutra.
- Compreendo – respondeu Adelli. Não grites. Quando o Sol de apagar, as outras estrelas desaparecerão também.
- Evidentemente que sim – murmurou Lupov. – Tudo começou na explosão cósmica original, qualquer que ela fosse, e tudo terá um fim quando as estrelas se extinguirem. Algumas extinguem-se mais depressa que as outras. Que demónio, as gigantes não duram mais de cem milhões de anos. O Sol deve durar vinte mil milhões de anos e talvez as anãs durem cem mil milhões, por muito boas que sejam. Mas daqui a um milhão de anos tudo estará as escuras. A entropia tem de aumentar até ao máximo, é isso.
- Sei tudo sobre entropia – respondeu Abell, de pé, firmando a sua dignidade.
- O diabo é que sabes.
- Sei tanto como tu.
- Então sabes que um dia tudo se extinguirá.
- Muito bem. Quem disse que não?
- Tu, meu pobre parvo. Disseste que tínhamos toda a energia de que necessitávamos, por toda a eternidade. Disseste “eternidade”.
Foi a vez de Adell contrariar.
- Talvez possamos um dia fazer coisas para evitar isso – aventurou ele.
- Nunca.
- Porque não? Um dia.
- Pergunta ao Multivac.
- Nunca.
- Pergunta ao Multivac. Desafio-te. Cinco dólares em como isso não pode ser feito.
Adell estava suficientemente bêbado para tentar e suficientemente sóbrio para fazer a programação da pergunta que, em palavras, corresponderia a isto: “Se a Humanidade estiver um dia sem a energia necessária para as suas exigências poderá conduzir de novo o Sol à sua juventude, mesmo depois de ele ter morrido de velhice?”
Ou talvez pudesse ser expressa de uma maneira mais simples: “Como pode a entropia do Universo ser diminuída de uma maneira significativa?”
O Multivac tornou-se lento e silencioso. O relampejar lento cessou e os distantes estalidos terminaram.
Então, quando os técnicos, assustados, já não podiam conter por mais tempo a respiração, a impressora anexa àquela parte do Multivac começou subitamente a funcionar. Cinco palavras foram impressas: “DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”
- Não há aposta - murmurou Lupov. Retiraram-se apressadamente.
Na manha seguinte, os dois, apoquentados com o latejar da cabeça e a boca a saber a algodão, tinham esquecido o incidente.
continua brevemente
- Isso não é a eternidade.
- Está bem. Milhares de milhões de anos. Vinte mil milhões, talvez. Estás satisfeito?
Lupov passou os dedos pelo cabelo que rareava como se quisesse assegurar-se que ainda lhe restavam alguns e sorveu um pouco da bebida.
- Vinte mil milhões não são a eternidade.
- Bem, deve durar mais do que nós, não é?
- Tal como o carvão e o urânio.
- Muito bem, mas agora podemos ligar cada uma das naves à Estação Solar e podemos ir a Plutão e voltar um milhão de vezes sem nos preocuparmos com o propulsante. Com o carvão e o urânio não podíamos fazer isso. Pergunta ao Multivac, se não acreditas em mim.
- Não tenho de perguntar ao Multivac. Sei que é assim.
- Então deixa de desacreditar o que o Multivac fez para nós – concluiu Abell, furioso. – Ele fez as coisas muito bem feitas.
Fez-se silêncio durante algum tempo. Abell levou o copo aos lábios, de vez em quando, e os olhos de Lupov fecharam-se lentamente. Repousaram.
Depois os olhos de Lupov abriram-se de súbito.
- Estás a pensar em passar para outro sol quando o nosso se esgotar, não é?
- Não estou a pensar.
- Certamente que estas. És fraco em lógica, esse é o teu problema. És como o rapaz daquela história que foi apanhado por uma súbita chuvada e se escondeu debaixo de uma árvore, num pequeno bosque. Não escava preocupado porque quando a arvore ficasse molhada iria colocar-se debaixo doutra.
- Compreendo – respondeu Adelli. Não grites. Quando o Sol de apagar, as outras estrelas desaparecerão também.
- Evidentemente que sim – murmurou Lupov. – Tudo começou na explosão cósmica original, qualquer que ela fosse, e tudo terá um fim quando as estrelas se extinguirem. Algumas extinguem-se mais depressa que as outras. Que demónio, as gigantes não duram mais de cem milhões de anos. O Sol deve durar vinte mil milhões de anos e talvez as anãs durem cem mil milhões, por muito boas que sejam. Mas daqui a um milhão de anos tudo estará as escuras. A entropia tem de aumentar até ao máximo, é isso.
- Sei tudo sobre entropia – respondeu Abell, de pé, firmando a sua dignidade.
- O diabo é que sabes.
- Sei tanto como tu.
- Então sabes que um dia tudo se extinguirá.
- Muito bem. Quem disse que não?
- Tu, meu pobre parvo. Disseste que tínhamos toda a energia de que necessitávamos, por toda a eternidade. Disseste “eternidade”.
Foi a vez de Adell contrariar.
- Talvez possamos um dia fazer coisas para evitar isso – aventurou ele.
- Nunca.
- Porque não? Um dia.
- Pergunta ao Multivac.
- Nunca.
- Pergunta ao Multivac. Desafio-te. Cinco dólares em como isso não pode ser feito.
Adell estava suficientemente bêbado para tentar e suficientemente sóbrio para fazer a programação da pergunta que, em palavras, corresponderia a isto: “Se a Humanidade estiver um dia sem a energia necessária para as suas exigências poderá conduzir de novo o Sol à sua juventude, mesmo depois de ele ter morrido de velhice?”
Ou talvez pudesse ser expressa de uma maneira mais simples: “Como pode a entropia do Universo ser diminuída de uma maneira significativa?”
O Multivac tornou-se lento e silencioso. O relampejar lento cessou e os distantes estalidos terminaram.
Então, quando os técnicos, assustados, já não podiam conter por mais tempo a respiração, a impressora anexa àquela parte do Multivac começou subitamente a funcionar. Cinco palavras foram impressas: “DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”
- Não há aposta - murmurou Lupov. Retiraram-se apressadamente.
Na manha seguinte, os dois, apoquentados com o latejar da cabeça e a boca a saber a algodão, tinham esquecido o incidente.
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segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2006
A Pergunta Final (Parte I)
A pergunta final foi feita pela primeira vez, meio a brincar, em 21 de Maio de 2061, num momento em que a Humanidade deu o primeiro passo na luz. Surgiu sobre o resultado de uma aposta de cinco dólares sobre bebidas, e aconteceu assim:
Alexander Adell e Bertram Lupov eram dois dos assistentes fiéis do Multivac. Tanto quanto podiam quaisquer seres humanos, sabiam o que estava por trás daquele rosto frio, que dava estalidos e relampejava – quilómetros e quilómetros de rosto – do computador gigante. Tinham pelo menos uma vaga ideia do plano geral de relés e circuitos que há muito crescera para além do ponto em que qualquer ser humano poderia ter uma ideia firme de todo o conjunto.
O Multivac corrigia-se e ajustava-se a si próprio. Tinha de ser porque nada que fosse humano podia ajusta-lo e corrigi-lo com velocidade bastante ou mesmo adequadamente. Portanto Adell e Lupov cuidavam do mostro gigantesco só de uma maneira ligeira, superficial, ainda que tão bem quanto era possível a qualquer homem. Introduziam-lhe dados, adaptavam as perguntas às necessidades dele e traduziam as respostas que eram dadas. Por certo que eles, e todos os outros como eles, tinham pleno direito de compartilhar a glória que era o Multivac.
Durante décadas o Multivac ajudara a desenhar as naves e a traçar as trajectórias que tinham permitido ao homem alcançar a Lua, Marte e Vénus, mas para alem disso os fracos recursos da Terra não permitiam suportar as naves. Era necessária demasiada energia para as longas viagens. A Terra explorava o seu carvão e o seu urânio com uma eficiência cada vez maior, mas as reservas eram muito escassas.
No entanto, lentamente, o Multivac aprendera o bastante para responder a perguntas mais profundas de maneira mais fundamental, e em 14 de Maio de 2061 o que fora teoria tornou-se um facto.
A energia do Sol foi armazenada, convertida e utilizada directamente numa escala planetária. Toda a Terra pôs de parte o seu carvão ardente, o urânio de cisão e ligou tudo a uma pequena estação, com quilómetro e meio de diâmetro, que girava em torno da Terra a metade da distância da Lua. Toda a Terra passou a funcionar graças a raios invisíveis de energia solar.
Sete dias não tinham sido bastantes para dissipar a gloria de tal feito e Adell e Lupov conseguiram finalmente escapar às atenções do publico e reunir-se calmamente onde ninguém podia pensar em os procurar. Nas câmaras subterrâneas desertas, onde porções do poderoso corpo enterrado do Multivac se podiam ver. Sem que cuidassem dele, madraçando, tratando dados com estalidos preguiçosos e contentados, o Multivac também entrara em ferias e os rapazes estavam-lhe gratos por isso. Originariamente não tinham intenção alguma de o perturbar.
Tinham levado uma garrafa com eles e a sua única preocupação de momento era a de se descontraírem em companhia um do outro e da garrafa.
- É intrigante, quando se pensa em tal coisa – disse Adell. O seu largo rosto tinha rugas de fadiga e ele mexeu a bebida lentamente com uma vareta de vidro, vendo os cubos de gelo rodarem desajeitadamente. – Toda a energia de que necessitamos…gratuitamente. Energia bastante para, se tal quiséssemos, derreter a Terra, tornando-a uma grande massa de ferro impuro, e mesmo assim não perderíamos a energia usada. Toda a energia que podemos usar, por toda a eternidade.
Lupov voltou a cabeça. Tinha o hábito de fazer isso quando queria expor o contrario e agora queria contrariar, em parte porque tivera de transportar o gelo e os copos.
- Eternamente, não – notou ele.
Alexander Adell e Bertram Lupov eram dois dos assistentes fiéis do Multivac. Tanto quanto podiam quaisquer seres humanos, sabiam o que estava por trás daquele rosto frio, que dava estalidos e relampejava – quilómetros e quilómetros de rosto – do computador gigante. Tinham pelo menos uma vaga ideia do plano geral de relés e circuitos que há muito crescera para além do ponto em que qualquer ser humano poderia ter uma ideia firme de todo o conjunto.
O Multivac corrigia-se e ajustava-se a si próprio. Tinha de ser porque nada que fosse humano podia ajusta-lo e corrigi-lo com velocidade bastante ou mesmo adequadamente. Portanto Adell e Lupov cuidavam do mostro gigantesco só de uma maneira ligeira, superficial, ainda que tão bem quanto era possível a qualquer homem. Introduziam-lhe dados, adaptavam as perguntas às necessidades dele e traduziam as respostas que eram dadas. Por certo que eles, e todos os outros como eles, tinham pleno direito de compartilhar a glória que era o Multivac.
Durante décadas o Multivac ajudara a desenhar as naves e a traçar as trajectórias que tinham permitido ao homem alcançar a Lua, Marte e Vénus, mas para alem disso os fracos recursos da Terra não permitiam suportar as naves. Era necessária demasiada energia para as longas viagens. A Terra explorava o seu carvão e o seu urânio com uma eficiência cada vez maior, mas as reservas eram muito escassas.
No entanto, lentamente, o Multivac aprendera o bastante para responder a perguntas mais profundas de maneira mais fundamental, e em 14 de Maio de 2061 o que fora teoria tornou-se um facto.
A energia do Sol foi armazenada, convertida e utilizada directamente numa escala planetária. Toda a Terra pôs de parte o seu carvão ardente, o urânio de cisão e ligou tudo a uma pequena estação, com quilómetro e meio de diâmetro, que girava em torno da Terra a metade da distância da Lua. Toda a Terra passou a funcionar graças a raios invisíveis de energia solar.
Sete dias não tinham sido bastantes para dissipar a gloria de tal feito e Adell e Lupov conseguiram finalmente escapar às atenções do publico e reunir-se calmamente onde ninguém podia pensar em os procurar. Nas câmaras subterrâneas desertas, onde porções do poderoso corpo enterrado do Multivac se podiam ver. Sem que cuidassem dele, madraçando, tratando dados com estalidos preguiçosos e contentados, o Multivac também entrara em ferias e os rapazes estavam-lhe gratos por isso. Originariamente não tinham intenção alguma de o perturbar.
Tinham levado uma garrafa com eles e a sua única preocupação de momento era a de se descontraírem em companhia um do outro e da garrafa.
- É intrigante, quando se pensa em tal coisa – disse Adell. O seu largo rosto tinha rugas de fadiga e ele mexeu a bebida lentamente com uma vareta de vidro, vendo os cubos de gelo rodarem desajeitadamente. – Toda a energia de que necessitamos…gratuitamente. Energia bastante para, se tal quiséssemos, derreter a Terra, tornando-a uma grande massa de ferro impuro, e mesmo assim não perderíamos a energia usada. Toda a energia que podemos usar, por toda a eternidade.
Lupov voltou a cabeça. Tinha o hábito de fazer isso quando queria expor o contrario e agora queria contrariar, em parte porque tivera de transportar o gelo e os copos.
- Eternamente, não – notou ele.
continua brevemente...
domingo, 5 de Fevereiro de 2006
Entropia
Entropia… Está em tudo. Em todos os nossos actos está presente a entropia. Todos os processos não passam de sucessões entrópicas que se passam à frente dos nossos olhos, sem que nós nos apercebamos. Coisas simples, do dia-a-dia, coisas que nós não valorizamos minimamente mas que são evidências que nos demonstram que a entropia está por toda a parte.
Trata-se de uma sensível matéria. Pequenas subtilezas definem a maior ou menor entropicidade de um fenómeno. Estes fenómenos podem ser afectados pelos mais diversos factores de todas as ordens, tais como condições específicas de vento, humidade ou pluviosidade. É por isso muito complicado caminhar sobre este assunto, pois corremos sempre o risco de atingir margens de erro astronómicas, podendo comprometer todo o processo de avaliação da entropia.
Enquanto eu escrevo sinto a entropia crescer, quer dentro de mim quer nas palavras que digito e que futuramente irão ser publicadas a um determinado público que poderá eventualmente ter uma resistência a entropia bastante significativa. Não é que a questão seja problemática, mas suscita por vezes a duvida naqueles que a confrontam em determinadas circunstâncias. Implicitamente acabei de anunciar outro factor determinador da entropicidade: o receptor da mensagem. Ela será tanto maior quanto menor for a capacidade aglutinadora de conhecimento.
Em conclusão, a entropia está sempre a aumentar, e não há nada que possamos fazer com o intuito de impedir esta inevitabilidade. Felizmente, existe uma forma eficaz de a combater: arroz carolino. Está cientificamente provado que, devido à sua textura, o arroz carolino diminui a velocidade entrópica podendo mesmo anulá-la. Se puder ser precedido de uma pitada de canela, tanto melhor. Isto constitui uma das maiores descobertas da história da Ciência. O combate à entropia conhecerá então o seu final, e os cientistas resolverão um grande problema, quiçá um dos maiores da história científica. Mais um triunfo para a raça humana, embora se apresente um problema: não há arroz carolino suficiente para anular toda a entropia…
Trata-se de uma sensível matéria. Pequenas subtilezas definem a maior ou menor entropicidade de um fenómeno. Estes fenómenos podem ser afectados pelos mais diversos factores de todas as ordens, tais como condições específicas de vento, humidade ou pluviosidade. É por isso muito complicado caminhar sobre este assunto, pois corremos sempre o risco de atingir margens de erro astronómicas, podendo comprometer todo o processo de avaliação da entropia.
Enquanto eu escrevo sinto a entropia crescer, quer dentro de mim quer nas palavras que digito e que futuramente irão ser publicadas a um determinado público que poderá eventualmente ter uma resistência a entropia bastante significativa. Não é que a questão seja problemática, mas suscita por vezes a duvida naqueles que a confrontam em determinadas circunstâncias. Implicitamente acabei de anunciar outro factor determinador da entropicidade: o receptor da mensagem. Ela será tanto maior quanto menor for a capacidade aglutinadora de conhecimento.
Em conclusão, a entropia está sempre a aumentar, e não há nada que possamos fazer com o intuito de impedir esta inevitabilidade. Felizmente, existe uma forma eficaz de a combater: arroz carolino. Está cientificamente provado que, devido à sua textura, o arroz carolino diminui a velocidade entrópica podendo mesmo anulá-la. Se puder ser precedido de uma pitada de canela, tanto melhor. Isto constitui uma das maiores descobertas da história da Ciência. O combate à entropia conhecerá então o seu final, e os cientistas resolverão um grande problema, quiçá um dos maiores da história científica. Mais um triunfo para a raça humana, embora se apresente um problema: não há arroz carolino suficiente para anular toda a entropia…
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